A guerra dos áudios

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Pouco tempo atrás, numa galáxia bem perto de você, começou a Guerra dos Áudios. Parafraseando o começo do mundialmente conhecido filme de George Lucas, Star Wars, trago esta análise da “guerra” entre os gigantes de tecnologia por um áudio na vida das pessoas.

 

Quando o jornalista britânico Ben Hammersley criou o termo podcast fazendo referência ao surgimento de rádios na internet, ele nunca imaginou que 17 anos depois isto viria a ser uma explosão.

Uma inovação, como o podcast, só se torna popular quando os consumidores o incorporam como hábito e quando as devidas ferramentas assim o permitem. Em 2004, quando surgiam os primeiros podcasts, a internet era muito nova. Ainda não existe a internet mobile. A Apple não havia lançado os smartphones e o que havia de mais parecido com isso eram os Ipods.

 

Como surgiu o áudio?


A primeira descoberta aconteceu nas ondas de rádio com capacidade de enviar som e fotos pelo ar. Isso aconteceu em 1860, quando o físico escocês James Maxwell descobriu as ondas, que foram apresentadas somente em 1886 por Heinrich Hertz.

Dez anos depois, um italiano chamado Guglielmo Marconi fundou, em Londres, a primeira companhia de rádio.

Com o tempo e o avanço das imagens surgiram as TVs. Mas a popularização das TVs não conseguiu acabar com o hábito das pessoas de ouvir rádio. Menos pessoas ouvem rádio, mas tá aí um canal de comunicação que perdura há bastante tempo...

Com a chegada da internet, passamos a ter a opção de ouvir rádio de qualquer parte do mundo. Os holofotes se voltaram, enfim, para o rádio.

 

O podcast


Com a internet, o rádio evoluiu para os podcasts.

No seu artigo de 2004, Ben criou o termo podcast fazendo alusão ao iPod junto com a palavra cast de brodcasting. Antes o chamavam de audioblogging.

Mas, como falamos antes, esta inovação precisou de hábitos e novas ferramentas para popularizar o seu uso no mundo inteiro.

Há muitos anos existem criadores de podcasts no Brasil, mas apenas nos últimos anos isso se massificou graças à plataformas como Spotify.

Os smartphones também ajudaram e, junto com elas, vieram as ferramentas que fazem distribuição do conteúdo como a Anchor, recentemente adquirida pelo Spotify.

Aqui já temos um primeiro protagonista desta guerra dos áudios. O Spotify como uma plataforma de música, além das rádios, podcasts e vai saber o quê mais no longo prazo.

 

A guerra de 2021


Tudo começou no Vale do Silício, mais precisamente na nuvem virtual da baía de São Francisco durante a pandemia com a febre das lives, as reuniões de Zoom, e o Zoom fatigue (termo utilizado para fazer alusão à fadiga que as pessoas enfrentam depois de tantas horas de chamadas de vídeos).

O Clubhouse surgiu em março de 2020 e foi lançado em abril deste mesmo ano. Até dezembro do ano passado, acumulava 600.000 usuários que falavam de tecnologia, inovação e investimento apenas nos Estados Unidos.

A coisa mudou de figura no dia 31 de janeiro de 2021, quando Elon Musk anunciou pelo Twitter que participaria de um bate-papo no Clubhouse. Isto ajudou a plataforma a ganhar popularidade no mundo todo.

Evento no Club House com Elon Musk e Marc Andreessen

 

Este recurso de voz é dirigido a pessoas dom mais de 30 anos que usam Twitter e não gostam de se expor frente às câmeras. Claro que alguns que gostam de câmeras também usam o Clubhouse, mas o produto está bem direcionado. Este público que usa texto (Twitter) e áudio (Clubhouse) é o protagonista desta história que deve alcançar cada vez mais pessoas.

Como o app ainda está limitado para os smartphones de sistema operacional da Apple, outros serviços de mensagens devem aproveitar esta onda e criar seus próprios serviços de áudio.

Como falamos antes, uma tecnologia só é popular quando a massa cria o hábito e as ferramentas o permitem. O Clubhouse ainda é reduzido - seu público é muito seleto. Ele é popular apenas neste segmento, mas em comparação com a massa de pessoas que usa o TikTok, por exemplo, não significa nada. O TikTok, por sua vez, é sinônimo de popularidade.

Já o Telegram, que ganhou muito força nesta pandemia, criou seu próprio recurso de chat de voz. Antes do coronavírus chegar por aqui, o aplicativo do Telegram já estava presente em 30% dos celulares brasileiros. Em maio de 2021 já havia ultrapassado a marca dos 45%. Há pouco tempo o Telegram anunciou o recurso de vídeos para concorrer no palco com o Zoom, Meet e Teams - outro assunto para explorarmos em outro post.

 

Nem tudo tem a ver com ClubHouse


Os jogos têm crescido em popularidade globalmente, mas o que isso tem a ver a guerra dos áudios?

Os entusiastas de jogos móveis precisam de fones de ouvido e um canal de comunicação para falar com seus colegas enquanto jogam. São milhões de usuários no mundo inteiro que usam o Discord e, após o jogo, os mesmos usuários criam novas contas para projetos profissionais, escolas e comunidade virtuais. O recurso - que é um diferencial no Discord - são as salas ou canais de comunicação por meio de mensagens de áudio.

Como mencionamos neste artigo, a Microsoft está muito interessada em adquirir o Discord não porque ele é apenas uma ferramenta para comunidades, mas porque que concentra um público que consome e cria jogos online - um mercado bilionário que só cresce.

 

E o Twitter?


A empresa começou a testar o Spaces em novembro de 2020 com um número limitado de usuários. No primeiro semestre de 2021 lançou o recurso no mundo todo para usuários de iOS e Android que tenham 600 ou mais seguidores.

Como anfitriões (hosts), os usuários do Spaces terão a capacidade de moderar suas salas convidando outras pessoas e escolhendo quem pode falar.

O Twitter também anunciou que está trabalhando em um novo recurso chamado “Ticket Spaces”. Este recurso permitirá que os usuários criem salas que exigem que outras pessoas comprem um ingresso para entrar. O objetivo é permitir aos usuários monetizar e incentivá-los a hospedar mais conversas de áudio ao vivo no Twitter.

 

Aplicativo do Spaces no Twitter

 

Soundbites: um novo formato de áudio


Como era de se esperar, o gigante azul não vai ficar para trás. O Facebook percebeu o aumento contínuo da popularidade dos áudios nas plataformas do WhatsApp e Messenger e resolveu partir pra briga.

Eles declaram que estão trabalhando para tornar as mensagens de áudio mais fáceis de gravar e mais divertidas - incluindo a capacidade das pessoas enviarem clipes de som familiares a seus amigos que variam desde efeitos sonoros, como grilos cantando, até citações de músicas populares. Interessante, não é?

Diferentes ferramentas de áudio dentro do aplicativo do Facebook permitem que você crie Soundbites - clipes de áudio criativos e curtos para capturar anedotas, piadas, momentos de inspiração, poemas e muitas outras coisas que ainda não imaginamos.

Alguns testes foram feitos no Soundbites nos últimos meses com um pequeno número de criadores a fim de refinar o produto com suas contribuições. Em breve devemos ter novidades.

 

Ferramenta do Soundbite no aplicativo do Facebook

 

As atualizações do poderoso Telegram


A ferramenta do Telegram é uma verdadeira construção em comunidade. Diferentemente do Whatsapp, Twitter e outros gigantes da tecnologia, o API do Telegram é aberto e permite que a comunidade de desenvolvedores criem bots e melhorias constantes, permitindo que novas funcionalidades sejam lançadas e a performance do aplicativo melhore mais rapidamente que a de seus concorrentes.

É um aplicativo que ainda está ganhando escala e não é massivo como o Whatsapp ou Messenger no Brasil, mas a sua força tem chamado a atenção de muitos players por aí.

 

Contagem regressiva do chat de voz do Telegram

 

Como comentamos neste artigo, o chat de voz do Telegram é tão bom quanto o do ClubHouse. Já surgiram novas atualizações permitindo que os admins de grupos e canais agora possam agendar um chat de voz para uma data e horário específico em vez de iniciar imediatamente. Isso permite que os membros da comunidade sejam notificados e possam acompanhar a contagem regressiva.

Além disso, você pode gravar o evento que realizou usando o chat de voz e publicar como se fosse um podcast. Já imaginou criar um podcast a partir de várias reuniões feitas no Telegram?!

 

Quem ganha esta guerra?


Num mundo dominado pela internet com cada dia mais pessoas consumindo conteúdo digital, me arrisco a dizer que o único que vai ganhar aqui é o criador de conteúdo, o consumidor de conteúdo e os Community Managers, que precisam de ferramentas para engajar e ativar as suas comunidades.

Tem plataformas para todos os gostos, idades, segmentos. É só entender qual se adapta melhor à sua comunidade e bora se conectar via áudios.

Minha dica é: misture áudio, texto e vídeo e crie o melhor mix para a sua comunidade.



Imagem de capa: Evan Lockhart/Thrillist

 

Emiliano Agazzoni
Emiliano é especialista em estratégias para comunidades e desenvolveu o primeiro curso e workshop sobre estratégias de comunidades do Brasil.

 

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